Shoujo Manga

Fé No Futuro
(Que Eu Espero Que Não Esteja Distante)

Nós crescemos assistindo desenhos animados. Animes marcaram a infância da minha geração (gente na casa dos 30), assim como tinha marcado a do pessoal da geração anterior (na casa dos 40) e vem marcando a dos que estão com os olhos na telinha desde a estréia de Cavaleiros em 1994. Basta ligar as tvs e os desenhos animados, novos, velhos, velhíssimos, americanos, japoneses ou raros de outras nacionalidades, invadem nossa vida. Mas e os mangás?
A maioria de nós não cresceu lendo mangá. Talvez alguns tenham tido contato com a primeira leva de mangás já adolescentes ou adultos, outros, começaram a ler mangás quando a JBC e a Conrad começaram a licenciar suas séries. Mas crescer lendo mangá, bem, só os meninos e meninas de 7, 8 anos, que começaram nestes últimos anos, poderão ter esta chance. Nós, os “velhos” ou não tão velhos assim, talvez nem tenhamos crescido lendo quadrinhos (comics, gibis), principalmente, as mulheres, como eu.

Por esse motivo, talvez seja muito mais comuns vermos animações que bebem satisfatoriamente das fontes japonesas e conseguem ao mesmo tempo ser criativas. Dois exemplos que me vem de imediato na mente são Dexter e As Meninas Super Poderosas. É assistir e não ter dúvidas de que o autor via anime na infância e adolescência e se saiu muito bem com suas referências narrativas e visuais. Claro, que isso nem sempre acontece, mas é menos comum do que no caso dos tais “mangás” ocidentais. Nesse último caso, temos mais decepções do que alegrias.

Vemos muitos desenhos animados que combinam a narrativa acelerada de alguns animes, os recursos visuais e mesmo os olhos grandes e caem no gosto popular. Conheço gente de todas as idades que acompanha os Teen Titans, que tem uma dinâmica muito próxima dos animes com sua ação vertiginosa, recorre a algumas gags, mas nunca se perde na caricatura, explorando de forma consistente o carisma das protagonistas. Nesse sentido, o “American Anime” existe, já oi “american Manga” é contestável.

Algumas referências/homenagens aos animes em cartoons são diretas, como o episódio Speed Racer do Laboratório de Dexter, já em outros é sutil. Para mim, fica meio evidente que o pessoal envolvido na produção assistiu muito anime na vida, ou pelo menos se deixou marcar por eles. Já produções que simplesmente repetem estereótipos e clichês, como Três Espiãs Demais, cairão num limbo que provavelmente não engolirá as simpáticas Meninas Super Poderosas.

Quando criança, eu queria ser desenhista de desenho animado, do jeito que os japoneses faziam em Patrulha Estelar e CandyCandy. Treinava, redesenhava cenas (eu tinha oito anos…) em cadernos velhos e em embalagem de Chocolate Surpresa durante as aulas. Era divertido, mas sem incentivo – sim, este vem antes da oportunidade – larguei aquilo de mão. Rabisco e escrevo para mim, mas não sou capaz de imaginar um roteiro de quadrinhos, por exemplo, mesmo com meu amigo Lancaster me dizendo que não é complicado. Para mim é mais fácil imaginar minhas histórias em filme ou desenho animado. Arrumar imagens em quadrinhos, e de forma subversiva como nos bons shoujo mangá, parece algo muito complexo.

Acredito que se eu tivesse crescido lendo quadrinhos seria menos complicado, mas não tive esta chance. Os desenhos animados vinham (quase) de graça, entravam na minha casa todas as tardes, já para revistinhas eu não tinha dinheiro (era um supérfluo intolerável para minha mãe), nem tinha lá muita coisa para ler. Duvido que esta não seja a experiência de algumas pessoas, mas muitos, mesmo sem condições, tentam… e se arrebentam na tentativa de produzir “mangás” fora do Japão, porque gostam, ou porque está na moda, ou, simplesmente, porque parece muito lucrativo. Aliás, é mais lucrativo ainda tentar “desbravar” o território quase “virgem” dos quadrinhos femininos.
É isso que sinto a cada vez que vejo notícias do tipo “Josie e as Gatinhas Mangá” que comentei na coluna passada. Aliás, a minha idéia para a coluna veio exatamente de uma matéria que li no site ICV2, que fala do mercado americano de quadrinhos e afins. O texto vai de encontro ao que penso. Vejam a passagem:

Apesar de nem todas as tentativas de adaptar o estilo mangá e anime para produtos americanos terem sido bem sucedidas (ex.: Marvel Mangaverse), muito tem sido feito para manter essa tendência bicultural crescendo, particularmente no campo da animação, onde séries como Megas XLR e Teen Titans demonstram forte influência dos animes. Mesmo a Nickelodeon, que foi a rede infantil americana mais resistente à invasão dos animes, anunciou um novo cartoon, Shuriken, que se passa em uma escola de ninjas.
Quem for checar a noticia poderá ver a capa do “mangá”. Sei que existem amostras de duas ou mais páginas em outra página, mas não tenho o link. É feio, mal desenhado e apela para recursos mais que batidos: caretas, grandes olhos, SDs e outros que não ficam explícitos em duas páginas, mas devem estar lá. Existe também a vantagem de já serem (fake) “catgirls”, outra fixação de alguns fãs de anime e mangá.

O que se percebe na maioria dos jovens quadrinistas que tentam “fazer mangá” é muita intimidade com a estética mais batida dos olhões, cabelos espetados, uniformes escolares, bishounens para as meninas, fanservices e peitões para os meninos. Fora outros clichês, usados à exaustão parecer mangá. Mas entre “parecer” e “ser” existe um grande abismo.
Vi um pouco disso em manuais americanos que estão sendo vendidos no Amazon. Eles se propõem a ensinar como fazer shoujo. Engraçado que os livros são todos feitos por homens… leitores assíduos de shoujo, suponho. Detalhe: a garota que abre a edição é marombada e nada tem a ver com nenhuma personagem shoujo que eu possa me lembrar de ter visto em mangás desde os anos 60. É um modelo de beleza americano, bem ao gosto masculino, com olhões, feita por homens que querem ensinar outros (homens?) a fazer shoujo.
Além dessa imagem, que pode ser visualizado no preview do livro (basta seguir as instruções no site para acessar), existe um manualzinho com características básico-obrigatórias do shoujo mangá. Triste, mas perfeito para quem quer produzir algo medíocre e afastado de qualquer coisa que seja um shoujo mangá genuíno.

Quando me perguntaram certa vez se eu poderia orientar um grupo que queria produzir um “shoujo mangá nacional”, eu disse que o grande conselho seria que lessem mangás, em especial, shoujo mangás. A coisa é básica: estudar é fundamental. Se você quer ser escritor, tem que começar como leitor. Se quiser ser atleta, não pode esmorecer frente aos exercícios. Se quiser ser bailarino, tem que treinar o básico, como se diz no mangá de Swan. Ler mangá faz parte deste básico para quem quer fazer mangá.
Não estou dizendo que quem não cresceu lendo mangá, não deve tentar fazer mangá. Longe disso, pois acredito no talento, no esforço e na superação. Acredito em Maggies como a do último filme de Clint Eastwood.

Mas digo que simplesmente não basta se prender ao superficial, achando que mangá é olho grande, pois o que se considera como a grande sacada dos quadrinhos nipônicos é a narrativa. E isso, pouca gente domina. Também é preciso ter boas idéias, ou, pelo menos, usar os clichês de uma forma criativa.
Querer fazer quadrinho feminino achando que basta colocar uns bishounens e uma protagonista burra, é passar atestado de que não conhece nem 10% do que o shoujo pode ser. Isso sem falar na pobreza geral. Pouca coisa me parece tão fora do lugar, por exemplo, do que os “shoujos nacionais” com colegiais em uniformes absolutamente fora do contexto brasileiro. E olha que usar uniforme ainda vale em muitos lugares.

O lugar onde dou aula, por exemplo, ou na minha cidade natal onde sabemos em qual segmento uma menina do colégio de freiras local está simplesmente pelo tipo de prega da sua saia azul marinho (Não estou brincando. Comprovei na loja que vende uniformes em janeiro.). Mas gravata, manga comprida, blazer e outros adereços estão totalmente fora da realidade nacional, muito embora possam aparecer tanto no material japonês quanto nas novelas mexicanas.

Enfim, antes que eu me perca voltemos ao tópico. É muito interessante ver o quão interessante pode ser a apropriação criativa dos referenciais japoneses em desenhos animados e quadrinhos ocidentais. É maravilhoso ver que coisas *pavorosas* como Três Espiãs Demais é a exceção, não a regra. Só que é muito mais fácil fazer desenho animado, do que fazer quadrinho, porque o pessoal que está com força no mercado hoje cresceu convivendo mal ou bem com as animações nipônicas.

Acredito que caberá a esta geração que está crescendo agora, com vários títulos de mangás à disposição, produzir essa apropriação criativa dentro dos quadrinhos. E não falo de “mangá brasileiro”, essa coisa estranha e sem consistência, mas quadrinhos nacionais que aproveitem múltiplas influências com personalidade.

Não vejo nada de ruim em se gostar de vários tipos de quadrinhos, filmes, música ou livros, ser eclético nos gostos pode não garantir a criatividade e/ou originalidade, mas ajuda a montar uma bagagem importante. Desejo mesmo que um dia tenhamos quadrinhos nacionais, em especial quadrinhos femininos (não “shoujo brasileiro”), que consigam ser atrativos como uma W.I.T.C.H. é para seu público.

Ser realista, não implica em abandonar a fé no futuro, e eu acredito no potencial dos adolescentes e crianças, mesmo que muita gente só veja cabeças ocas, gente que não lê, não pensa e que vai contribuir para a decadência do mundo. Alguns são assim, mas mesmo esses ainda têm mais tempo para mudar de rumo do que o pessoal que, como eu, já viveu 30 anos e às vezes se mostra tão carregado de vícios e certezas que não ajudam em nada a mudar esse mundo para melhor.

Até semana que vem! ^_^

Valéria Fernandes
shoujofan@bol.com.br
http://shoujo-house.cjb.net

P.S.1: Quero agradecer ao pessoal que tem me escrito e dizer que vou responder todos os e-mails, mesmo aqueles que já tem um mês. Estou com mensagens muito atrasadas e sou uma pessoa enrolada, mas não pensem que não ligo para o feedback de vocês, pois é isso que me estimula a continuar escrevendo.

P.S.2: Não pensem que sou ingênua em relação á W.I.T.C.H., pois sei que a revista é somente mediana e se cria no vácuo da falta de material para a sua faixa etária (8-13). Além disso, o sucesso também se deve um pouco à marca Disney e, no Brasil, ao selo Abril. Talvez (e é só especulação mesmo) se tivéssemos shoujo mangás para o mesmo público a concorrência seria mais pesada. Aliás, nem na Itália, berço de W.I.T.C.H. se publica shoujo mangá pensando nesse público pré-adolescente.

P.S.3: Me escreveram semana passada comentando que eu não poderia exigir que a Trina Robbins falasse de shoujo mangá em um livro de 1999. Pois bem, tão informada como ela é (É mesmo, o livro mostra isso), ela certamente já tinha contato com o material japonês naquela época, até porque, já havia shoujos saindo nos EUA, e ela trabalha adaptando este tipo de material. Só por via das dúvidas localizei três entrevistas com ela onde ela fala de shoujo e confirma a sensação de que o shoujo mangá está o lugar do legítimo quadrinho feminino americano e que ela dá graças à Deus pela Archei Comics. É só clicar nas páginas 1 – 2 – 3. Se quiserem, posso mandar por e-mail os fragmentos e poupar o esforço de procurá-los.

P.S.4: Meu site saiu da HPG, ele continua no ar mas não sofrerá atualização, o novo endereço é http://shoujo-house.cjb.net. Qualquer dúvida, só entrar em contato. ^_^

P.S.5: Meu marido-revisor disse que estou ficando repetitiva… vou tentar ver se fujo disso na minha próxima coluna.

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